ADAPTAÇÃO : O FIM DE CINCO MITOS.
Para acabar de vez com velhas
crenças sobre os primeiros dias dos pequenos na escola
Crianças chorando e pais
ansiosos. Esse é o cenário que se vê todo início de ano nas portas de creches e
pré-escolas. O momento é tenso para eles e também para o professor.
Por isso, elegemos cinco ideias
que caíram no senso comum e certamente estão na cabeça dos professores.
Com as informações sobre os
mitos que estão a seguir, será possível desconstruí-los, mostrando o que
acontece com as crianças. Dessa forma, os professores terão mais segurança ao
agir e certamente terão mais sucesso na integração da criança à escola sem
traumas.
Ao sair do ambiente familiar, a
criança aos poucos deixa a fase de anomia, que é o desconhecimento das regras
sociais, e passa para a heteronomia, ou seja, começa a reconhecer as normas de
convívio, mas ainda não as incorpora. A adaptação, portanto, nada mais é do que
uma passagem bem marcada da primeira para a segunda fase. "O processo é
demorado e somente ao longo da vida ela chega à autonomia, tornando-se
responsável pelos seus atos.
Já para os pais, o momento é
mesmo de nervosismo e apreensão: "Eles ainda não têm total confiança na
escola e precisam de informações para se sentirem seguros.
É preciso saber lidar com os
familiares, pois eles são importantes no processo de aprendizagem. Cabe a
equipe escolar intermediar a relação entre a escola e os pais, suprindo-os com
os dados necessários sobre a rotina e a interação dos filhos com as propostas
pedagógicas.
Mito 1
Criança que não compartilha
brinquedos não está adaptada.
"Você tem de dividir o
brinquedo com seu amiguinho." "Isso não é seu, empreste para
ele." Frases como essas são comuns em uma sala de Educação Infantil. Para
a criança, muitas vezes, elas podem soar como uma ordem, uma obrigação,
causando choro e recusa. Aos olhos dos adultos, a negação da criança em dividir
é vista como egoísmo. Criar uma situação ameaçadora, aumentando o tom de voz ou
sugerindo uma punição caso a criança não divida ou colabore com um colega, não
é o caminho.
O que acontece - Nos primeiros
anos de vida, a criança encontra-se num momento autocentrado do seu
desenvolvimento e desconhece as regras de convivência social. A compreensão do
sentido e do prazer de compartilhar virá posteriormente, depois de um processo
mais amplo de reconhecimento do outro.
Como resolver - Ter
conhecimento sobre as referências teóricas sobre as fases de desenvolvimento
das crianças e seus comportamentos, como os estudos do educador francês Jean
Piaget (1896-1980). O trabalho com estratégias de partilha e colaboração pode
ser facilitado se o professor for orientado a montar em sala grupos menores,
com duas ou três crianças, e a promover combinados - como o de que a criança
pode ficar com um brinquedo por certo tempo, mas que depois deve cedê-lo ao
colega. Agir de maneira firme e ao mesmo tempo acolhedora, a fim de mediar os
conflitos e não negá-los ou resolvê-los de forma impositiva, é outra dica. Na
hora do impasse, o ideal é expor o conflito e descrever para a criança as
consequências de querer o objeto só para ela. Além disso, incentivar que elas
verbalizem o que estão sentindo e encontrem soluções em conjunto ajuda no
processo de mudança de atitude.
Mito 2
Criança adaptada é extrovertida
e participativa.
Durante uma brincadeira de
roda, a turma está toda junta, cantando. Apenas uma criança olha para o teto,
cantarola baixinho alguns versos e não interage com as outras. A professora
chama a atenção: "Cante mais alto! Você está triste? Por que nunca participa?"
Certamente, quem age assim pensa que está incentivando a interação. Contudo,
pode ocorrer o efeito contrário. O mais adequado é se perguntar qual estratégia
seria melhor para que a criança responda às atividades. Elogiar apenas os
alunos mais participativos aprofunda o sentimento de não-pertencimento.
O que acontece - Existem as
crianças extrovertidas, como também as tímidas. O respeito à personalidade de
cada uma é essencial para o processo de adaptação e o direito à timidez precisa
ser assegurado.
Como resolver - As estratégias
para integrar as crianças devem ser procuradas pelo conjunto de educadores - e,
certamente, com a ajuda dos pais. Para tanto, uma entrevista do coordenador
pedagógico com os familiares sobre as preferências dos filhos é fundamental.
Esse material será cruzado, durante a formação, com os registros de classe,
relatórios de adaptação e portfólios. O que está sendo proposto atende às
necessidades da criança? É possível também fazer visitas à sala ou gravar
vídeos para perceber as práticas que funcionam melhor para cada criança e para
o grupo.
Mito 3
Na Educação Infantil, todos
precisam ser amigos.
"Que coisa feia! Dá a mão
para o seu colega." Fazer com que as crianças se tornem amigas não é
tarefa da escola, mas ensinar a conviver é um conteúdo imprescindível na
Educação Infantil. Nem crianças nem adultos são amigos de todas as pessoas que
conhecem e não por isso a convivência pessoal ou profissional é inviável. O
papel do professor é incentivar e valorizar o que as crianças têm em comum. A
escolha sobre com quem elas desejam ter uma relação mais próxima é
absolutamente dela.
O que acontece - No período de
adaptação, primeiro há a criação do vínculo para que o trabalho escolar
aconteça. Ele deve estar baseado no respeito entre as crianças e entre elas e
os professores. Aos poucos - e naturalmente -, a afetividade vai sendo
construída baseada nas afinidades dentro do grupo.
Como resolver - Os educadores
devem intervir apenas quando a amizade prejudica a participação nas atividades
(por exemplo, quando uma criança só quer ficar com alguns colegas e se isola do
coletivo). A professora precisa desenvolver um olhar atento sobre as situações
ideais para explorar os gostos comuns em favor da aprendizagem. Nos encontros
de formação, invista na criação de oportunidades para que os pequenos se
apresentem e falem dos seus objetos preferidos e discuta as situações reais que
acontecem em sala.
Mito 4
Quando estão integrados ao
grupo, os pequenos não choram mais.
Basta chegar à escola que as lágrimas
aparecem. Se a mãe vai embora, elas aumentam. Na hora de brincar, de comer, de
ler, choro. Muitos professores ficam desesperados e tentam distrair a criança
mostrando imagens ou arrastando-a para um canto com brinquedos. Um engano, pois
essa atitude pode atingir o objetivo imediato - que é acabar com o choro -, mas
não resolve o problema.
O que acontece - Essa
manifestação é apenas um sintoma do desconforto da criança. Interpretar esse e
outros sinais - como inapetência e doenças constantes - é fundamental durante a
adaptação. O que eles significam? Por outro lado, a ausência do choro não quer
dizer que a criança está necessariamente se sentindo bem: o silêncio absoluto
pode ser um indicador de sofrimento.
Como resolver - Uma criança que
passa longos períodos chorando necessita de acompanhamento mais próximo até a
criança se sentir mais segura. Ajuda também ter um plano para receber bem as
crianças na primeira semana de aula. O uso de tintas, água e brincadeiras
coletivas variadas é um exemplo de práticas atraentes que ajudam os pequenos a
se interessar pelo novo espaço. Fazer com os professores uma orientação
programada para que as crianças tragam objetos de casa - como fraldas, panos e
brinquedos, que vão sendo retirados paulatinamente - auxilia a reduzir a
insegurança.
Mito 5
A presença dos pais nos
primeiros dias só atrapalha a adaptação.
Na porta da sala, uma dezena de
pais se acotovela querendo ver os filhos em atividade. A cena, pesadelo para
muitos professores de Educação Infantil, que não sabem se dão atenção às
crianças ou aos adultos, é representativa de um elemento essencial para que a
adaptação aconteça bem: a boa integração entre a família e a escola, que deve
acontecer desde o começo do relacionamento.
O que acontece - Nem todo pai
ou mãe conhece as fases de desenvolvimento da criança e as estratégias
pedagógicas usadas durante a adaptação. Eles têm direito de ser informados e
essa troca é fundamental na transição dos pequenos do ambiente doméstico para o
escolar. A ansiedade dos pais vai diminuir à medida que a confiança na escola
aumenta - e isso só acontece quando há informações precisas sobre a trajetória
dos pequenos.
Como resolver - É função do
coordenador pedagógico acolher as famílias, fazer entrevistas para conhecer a
rotina da criança e explicar o funcionamento e a proposta pedagógica da escola,
além de estabelecer um combinado sobre a permanência dos pais na unidade
durante a adaptação. Criar juntamente com os professores um guia de orientação
para eles com dicas simples - como conversar com a criança sobre a ida à
escola, a importância de levá-la até a sala e de chegar cedo para evitar
tumulto - pode evitar problemas. Além disso, desenvolver um relatório de
distribuição periódica, com informações sobre os progressos na aprendizagem e
na socialização das crianças ajuda a aplacar a ansiedade dos pais.
BIBLIOGRAFIA
A Construção do Real na
Criança, Jean Piaget, Ed. Ática.
Os Fazeres na Educação
Infantil, Maria Rosseti e outros, Ed. Cortez.
Manual de Educação Infantil,
Anna Bondioli e Suzanna Mantovani, Ed. Artmed.
“A identidade da escola se
afirma na articulação com as outras instituições sociais – a família, a
comunidade – e se configura no cumprimento da tarefa de socializar de modo
sistemático a cultura e de colaborar na construção da cidadania democrática”.
Terezinha Azeredo Reis

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